Onde o prato encontra a cidadania
As Confrarias Gastronómicas são guardiãs da nossa memória alimentar, mas preservar a tradição exige mais do que celebrá-la à mesa. A Gastronomia com Civismo propõe uma nova atitude: defender os produtos, as pessoas, os saberes e os territórios que dão vida à nossa identidade gastronómica. A partir do Litoral Alentejano, lançamos este desafio: fazer da gastronomia um compromisso com a nossa terra e com o seu futuro.
As Confrarias Gastronómicas e Enogastronómicas são, na sua génese, as grandes guardiãs da nossa memória alimentar. Quando as capas e as insígnias enchem as ruas nos nossos Capítulos, há um colorido inegável que celebra a nossa identidade e enche de orgulho quem desfila e quem assiste. Contudo, impõe-se uma reflexão urgente, alicerçada numa crítica construtiva que devemos a nós mesmos: será que a ostentação do símbolo é suficiente para garantir a sobrevivência da nossa raiz?
A verdade é que a mera mostra dos pratos nos nossos repastas de cerimónia, por mais saborosos e rigorosos que sejam, não significa forçosamente que o nosso objeto social esteja a ser plenamente cumprido. A tradição não é uma peça de museu, estática e intocável, coberta de pó à espera de ser admirada num dia de festa. A tradição é orgânica. É mutável. E para a conservarmos, impõe-se uma proatividade que vá muito além da mesa farta.
É neste ponto de viragem que o meio confrádico precisa de despertar para um conceito pioneiro e agregador: a Gastronomia com Civismo.
O que significa isto na prática? Significa compreender que a defesa de uma receita tradicional exige, antes de mais, a defesa do território que lhe dá origem. Não há Sopa de Cação sem a dignidade do pescador e do produtor de coentros; não há Ensopado sem a salvaguarda do pastoreio extensivo e da biodiversidade do montado; não há excelência báquica sem o respeito pela geologia do solo e pelo suor de quem vindima.
A Gastronomia com Civismo convoca-nos para a responsabilidade coletiva. Exige que as Confrarias desçam do seu pedestal folclórico e se sentem à mesma mesa com o agricultor, com o cientista, com o autarca e com o empresário da restauração. A nossa missão não se esgota em comer bem e entoar hinos; a nossa missão passa por garantir a coesão territorial, o combate ao desperdício, a educação para o paladar das novas gerações e a valorização do capital humano que sustenta a nossa Dieta Mediterrânica.
Se ficarmos reféns da nostalgia, a tradição morre de inércia. Precisamos de olhar para o receituário como uma ferramenta de cidadania e de economia local. Precisamos que as nossas insígnias sejam mais do que medalhas; que sejam selos de compromisso com o impacto económico, social e ambiental da alimentação.
Este é o caminho que pretendemos trilhar a partir do Litoral Alentejano, onde a "Soberania do Sabor" tem de dar a mão à "Raiz da Identidade". Para que a cultura gastronómica tenha futuro, temos de lhe dar presente. E o presente exige civismo. Exige que cada Confrade seja não apenas um provador de excelência, mas um ativista da sua própria terra.
A mesa está posta. Quem se junta a esta reflexão?
Maria Fernanda Calado
Confraria dos Saberes e Sabores no Lousal